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"A Escola Caviar" e os "paradoxos em decadência"

Sexta-feira, 23.04.10

 

Não sei quando ouvi esta expressão pela primeira vez mas soube-me à maior ironia... Penso que terá sido a uma Professora com mau feitio mas que era respeitada. Paradoxos em decadência caiu-nos assim, sem percebermos muito bem se se referia ao nosso fraco empenho ou a outras falhas que desconhecíamos. Gravei a expressão na memória e só hoje me surgiu de novo. Porquê?

Somos todos paradoxais, essa é que é a verdade. Só que há paradoxos genuínos e paradoxos retorcidos. Hoje é de um bem retorcido que venho falar.

 

Tudo começou com um post d' O Cachimbo de Magritte. Não sei bem porquê, mas os Cachimbos aglutinaram ultimamente os debates mais interessantes porque implicam dilemas filosóficos e morais... alguns dos debates até se incendiaram, mas os fleumáticos Cachimbos trataram de os apagar a tempo... Este post, no entanto, não provocou reacções, o post que atraiu comentários foi este de Paulo Guinote n' A Educação do Meu Umbigo, o que até se compreende, pois é um blogue de professores para professores e para o público em geral. Aí caiu que nem um meteorito!

 

Antes de introduzir o texto, só uma provocão aos nossos neurónios e à nossa consciência mais abrangente: a esquerda radical, que mais contribuiu para esvaziar a escola da sua verdadeira função, que mais contribuiu para anular a autoridade dos professores, e ainda quem mais contribuiu para destruir a possibilidade deste ambiente que o autor, Daniel Oliveira, observa numa escola ideal, e que todos sabemos que é o ambiente propício ao estudo e à aprendizagem, à troca de ideias e à reflexão, à autonomia e à responsabilidade, à colaboração e ao convívio saudável, enfim, ao ensaio de uma vida activa, se refira a tudo isto que ajudou a destruir com uma nostalgia lamechas e doentia de tão perversa... Se este não é um verdadeiro exemplo de um paradoxo em decadência, vou ali e volto já...

 

Aqui vai, A Escola Caviar: 

 

Quando Daniel Oliveira escreve sobre Educação fico com calafrios equivalentes aos que senti, outrora, quando lia certas coisas do Miguel Sousa Tavares ou do Rangel, versão Emídio.

Com Daniel Oliveira ainda é pior porque ele acumula uma leitura desajustada da realidade das escolas, reflexo – quiçá – de algum trauma mal resolvido da infância ou adolescência (faltou-lhe uma boa secundária da margem sul nos anos 70 para enrijar a pele? ou a dele foi mais melhor boa porque era ainda anti-fascista?) com um lirismo digno de fazer chorar as pedras da calçada, não negando eu que ele tem as melhores intenções, daquelas que tornaram o Inferno um lugar repleto no mau sentido (sim, porque o Inferno até pode ser acessível e desejável por razões apetecíveis e mesmo válidas).

Pelos vistos, Daniel Oliveira visitou uma escola privada e, claro, ficou seduzido pela disciplina, pelo rigor, pela criatividade, pela liberdade, por tudo aquilo que ele e os que pensam como ele no plano teórico ajudaram a não existir no nosso sistema público de ensino.

A minha escola

Conheci uma escola parecida com aquela onde gostaria de ter estudado. O oposto do que as carpideiras do regime, que se dizem “politicamente incorrectas”, defendem. Eles querem a do passado. Nós precisamos da do futuro.

(…)

 A escola pública que imagino, por ser para todos, incluindo para os que não têm famílias que valorizem a formação ou têm apenas poucas condições para o estudo em casa, nunca poderia ser exactamente assim. Mas podia ter isto como ideal.

Se os portugueses conhecessem alguns dos melhores sistemas de ensino público por esse mundo fora perceberiam que os mais ferozes críticos da nossa escola vivem num atraso doloroso. A resposta aos problemas no nosso ensino não está na velha escola fria e implacável. Não perdemos nada com a sua morte. Porque era preguiçosa não inovava. Porque era defensiva não se expunha à criatividade dos alunos. Porque não promovia a liberdade desresponsabilizava. Porque era mais castradora criava cidadãos acríticos. O problema não é o que perdemos, é o que ainda não temos. Ainda não chegámos à nova escola. Aquela onde se aprende a aprender. E a gostar disso.

O meu problema com a nossa escola pública não é ter perdido o velho gostinho do atingamente. É ainda sobrar nela demasiado desse sabor.

Daniel Oliveira é um doutor -a pesar de gostar imenso de sublinhar que não o é – nestas matérias, tem um saber feito de imensa observação, argúcia, vibração. Gosta de falar numa escola “estimulante”, onde se “aprende a aprender”, nessa espécie de paraíso terreno que ele encontro numa escola privada estrangeira em Portugal.

Que ele visitou.

A escola que ele gostava que tivesse sido a dele.

E eu acredito.

Porque a escola-caviar é bem mais agradável do que a escola-pescadinha de rabo na boca com que milhares – muitos – de professores e alunos lidam no seu dia a dia.   "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:55








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